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Porque não gostamos das atividades domésticas?

Posted in Independência Doméstica

Se eu me fizesse esta pergunta alguns anos atrás, diria que é porque as atividades domésticas são chatas, sujas e trabalhosas. Mas hoje, 3 anos após declarar minha independência doméstica, não acredito mais nesta resposta.

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Minha mãe me disse uma vez que “limpar banheiro não engrandece ninguém”. Na hora concordei com ela, mas passados alguns dias, vi que limpar banheiro te torna mais humilde. Humilde no sentido de entender que todos os serem humanos precisam de higiene, assim como comer, dormir e se abrigar da chuva. Não importa se vc é um grande empresário, gerente bam-bam-bam de multinacional ou juiz do STF. Vc precisa, como todos os outros serem humanos, de um banheiro limpo. E a simples tarefa de cuidar disso pessoalmente ajuda, e muito, a não perdermos os pés do chão. A lembrar que vc pode ganhar todo o dinheiro do mundo, mas continua precisando das mesmas coisas, básicas. Não sei se isso engrandece, mas certamente não diminui.

Voltando à pergunta inicial, alerto que este será um artigo “filosófico”. Mas que, não perdendo a proposta do nosso site, terá utilidade prática. Afinal, se descobrirmos uma forma de ter prazer nas atividades domésticas, fica tudo bem mais fácil, certo?!?! Comecemos por definir “gostar”.

Lá pelos meus 22-23 anos, entrei numa crise de que eu não sabia do que eu gostava. Achava que eu só fazia o que os outros gostavam, não o que eu gostava. Foi então que decidi fazer minha primeira viagem sozinha. Sendo apenas “me, myself and I”, não dava para agradar os outros, certo?! Onde ir? Salvador, claro. Minha terrinha querida onde fui criada. Lá certamente há muitas coisas de que gosto, pensei.

A viagem foi ótima e, de fato, consegui curtir muito minha própria companhia. Eu fui a shows, praia, comi acarajé que eu amo e tomei bastante suco de umbu. Mas a pergunta permaneceu sem resposta. Até pq viagens têm essa coisa da gente curtir o que não faz na própria cidade, né?! Tipo ir no museu em Paris sem nunca ter ido no MASP... rsrsrs...

Qdo voltei, pensei em observar, no meu momento livre, o que eu gostava de fazer. Decidi recorrer às listas. E comecei a anotar tudo o que eu gostava. Sem preconceitos. Vejam o que consegui juntar após alguns meses: dançar, decoração, viagens, fazer cursos, trabalhos manuais, paisagismo, estudar, aprender línguas, cinema, conversar, namorar, tomar café, comer, banho quente, praia e comprar. Ok, ok, podem rir!

Precisava, então, organizar estas idéias. Cheguei a algumas categorias: contato com a natureza, artes, trabalhos manuais/corporais, exercícios intelectuais, socialização, consumo e prazeres simples.

Li em algum lugar certa vez que todo homem precisa de arte e contato com a natureza para ter equilíbrio. Ótimo, condiz com 2 itens da minha listinha. Socialização também é manjado, estilo “Nenhum homem é uma ilha” (John Donne).

Quanto aos exercícios intelectuais e manuais, vim posteriormente saber que fazem parte do desenvolvimento humano. A pedagogia Waldorf diz que no primeiro setênio (0 aos 7 anos) a criança emprega todas as suas energias para o desenvolvimento de seu físico/motor. Já no terceiro setênio (14 a 21 anos), desperta no jovem o pleno desenvolvimento das forças do pensar lógico, analítico e sintético.

Prazerem simples são o básico. Lembro que meu filhinho quando tinha 6 meses tinha como alegrias comer, dormir, tomar banho (até aqui prazeres ou mesmo necessidades básicas), tentar adquirir novos movimentos (desenvolvimento motor, primeiro setênio) e aprender. Sim, pq qdo ele brinca, está aprendendo. Descobrindo o que é o mundo, os sabores, odores e sensações das coisas ao seu redor. Acho que a gente nunca perde isso.

Até aqui, compreendi que os meus “gostos” eram razoavelmente vulgares. Nada de especial ou bizarro comigo. Mas havia o consumo. Este eu não conseguia entender. Fui, pois, “consultar os universitários”. Comprei dois livros fantásticos: Chega de desperdício e Cultura, consumo e identidade. Ambos são bem interessantes, super recomendo, mas não caberia descrevê-los em detalhes aqui. Mas há uma passagem que tenho que compartilhar. É do livro Cultura, consumo e identidade. Nele, Colin Campbell menciona:

“Fazer compras (...) é uma das maneiras de procurar por nós mesmos e por nosso lugar no mundo. Apesar de acontecer num dos lugares mais públicos, fazer compras é essencialmente uma experiência íntima e pessoal. Comprar é provar, tocar, testar, considerar e pôr para fora nossa personalidade através de diversas possibilidades, enquanto decidimos o que precisamos ou desejamos. Comprar conscientemente não é procurar somente externamente, como numa loja, mas internamente, através da memória e do desejo. Fazer compras é um processo interativo no qual dialogamos não só com pessoas, lugares e coisas, mas também com partes de nós mesmos. Esse processo dinâmico, ao mesmo tempo que reflexivo, revela e dá forma a partes de nós mesmos que de outra forma poderiam continuar adormecidas... O ato de comprar é um ato de auto-expressão, que nos permite descobrir quem somos”. E ainda “(...) o fazer compras poderia ser visto como um processo pelo qual os indivíduos resolvem o “problema” da identidade pessoal. Eles “descobrem quem são” monitorando suas reações a vários produtos e serviços, estabelecendo assim seus gostos e desejos específicos”.

Li uma vez que a nossa sociedade está tão distante da natureza, que precisamos preencher este vazio com belezas “humanas”, ou criadas pelo homem. Daí o sucesso dos shopping centers com suas luzes, cores e climatizadores.

Mais uma vez, havia descoberto que aquilo que eu gostava era parecido com o que as outras pessoas gostavam. E? Não havia, ainda, respondido a minha pergunta, certo?! Porque saber o que eu e os outros gostam não me ajuda a entender o mecanismo do gostar.

Foi então que num momento de iluminação inconsciente, meu marido me deu a resposta. Estávamos indo buscar o pequeno no berçário. Era sexta final da tarde e sentimos um forte cheiro de churrasco. Somos vegetarianos e, apesar de saber que o cheiro era bom, não nos representa nada. Daí meu marido disse: "Nossa! Que cheiro de churrasco. Curioso que alguns anos atrás eu sentiria este cheiro e ele me remeteria a coisas boas, diversão, amigos...”. Foi ai que caiu a minha ficha: Gostamos do que nos ensinam ser bom!

Sim, pq vc aprende com as pessoas em volta que ir num churrasco é divertido. Me lembro de muitos momentos felizes em churrascos. Mas no geral, come-se mal e bebe-se além da conta. É bem possível divertir-se comendo melhor e bebendo menos, mas a partir do momento em que vc aprende que churrasco é bacana, vc gosta dele.

Fui expandindo este conceito pensando em outras coisas, lembrando da experiência de pessoas próximas, filmes, livros e cheguei a conclusão que muitas das coisas que gostamos são as coisas que fizemos na nossa infância, ou, em outras palavras, que aprendemos qdo criança serem coisas divertidas. Não é a toa que na minha crise dos 20 anos, quis passear em Salvador. Foi lá que passei a infância e por isso, gosto de muitas coisas de lá.

Onde quero chegar com isso? Quero pensar em como chegamos à conclusão que os afazeres domésticos são ruins. Me lembro qdo estava fazendo mestrado que eu e meu marido íamos felizes da vida passar o sábado na biblioteca, desistindo, inclusive, de ir a bares ou festas de amigos. As pessoas nos achavam os mais nerds do mundo. E pq? Pq por alguma razão neste país estudar é, no geral, mais obrigação que prazer.

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Sinto o mesmo em relação às atividades domésticas. A maioria de nós aprendeu em casa que trabalhos domésticos são inferiores. Não há nenhum prazer neles e, sempre que possível, devem ser tercerizados. Qto ao fato de ser um trabalho sujo, isso é inegável, mas está longe de ser o único trabalho sujo do mundo, vide minhas aulas de análise de fezes na faculdade... ninguém espera que vc faça faxina com as mãos, sem proteção adequada. Sendo assim, desossar um frango é bem mais nojento que limpar uma pia, mas se for feito pelo Jamie Oliver e televisionado mundialmente, é chique!

Vejam este vídeo, que provocativo: http://www.youtube.com/watch?v=_c71bqgKONE

Claro que acho meio “over” pq a criancinha é super nova e o banheiro mega sujo, mas a mensagem é a de que uma criança que aprende desde cedo que limpar a própria casa é "normal", terá bem menos dificuldades de fazê-lo qdo for adulta.

E para nós, que não fomos criados assim? Ué, simples! Basta aprender a gostar. E dá? Olha, eu aprendi a gostar de cozinhar, mergulhar, tomar vinho, gravar vídeos e, pasmem, cuidar da minha casa.

Claro que vcs podem pensar: “ah, mas cozinhar é gostoso e mergulhar então nem se fala”. Eu não acho que sovar massa de pizza seja particularmente prazeroso e mergulhar, em muitos momentos, é super tenso. Mas algo nos faz gostar da experiência no geral.

E é isso que precisamos descobrir nas coisas para aprender a gostar delas. Um bom exemplo é trocar fralda. Ninguém gosta de limpar bumbum com cocô, especialmente se junto vc levar de brinde um jato de xixi. Mas sentir que se está cuidando do seu filhinho é gostoso. E porquê, então, não podemos fazer o mesmo com a casa?

Podemos. E faremos! Seguem algumas dicas que uso para me automotivar:

1. Estou economizando R$ 400/mês. Dinheiro este que posso torrar em qq coisa para mim ou para a minha casa;

2. Ninguém estranho entra na minha casa, não preciso dar coordenadas e não corro o risco de levar cano de ninguém;

3. Cuidar da minha casa é cuidar da minha família e, no final das contas, é um ato de amor a todos que vivem nela, inclusive a mim mesma;

4. Odeio fazer academia ou qq outro tipo de esporte. Faxinar é uma forma fácil de queimar umas calorias e resolve 2 problemas de uma só vez;

5. Enquanto faço faxina, consigo pensar na solução para vários problemas, dou uma parada no trabalho e transito entre dois mundos completamente distintos: o doméstico e o profissional;

6. A meu ver, cuidando da casa, sei que meu filho crescerá entendendo isso como algo natural, o que facilitará, e muito, a vida adulta dele (menos dependente);

7. Ser responsável pela minha própria faxina me faz não querer comprar uma casa maior e ser feliz com a que tenho!! Rsrsrsrs...

Claro que isso é bastante pessoal. Mas espero que tenha conseguido passar para vcs o conceito principal, de que podemos moldar a forma como vemos as coisas.

Para isso, é só reprogramar a nossa cabeça. Afinal, o que há de tão mais legal assim em ir num shopping em SP num sábado de chuva? Vai me dizer que pegar trânsito, não achar lugar para estacionar, pegar fila para ir ao banheiro, esperar 40 minutos por uma mesa no restaurante e ainda gastar 1 ou 2 dias do seu salário é imensamente mais divertido que passar roupas ouvindo um CD que vc adora ou dar uma geral na cozinha tomando um espumante na companhia do marido?

É tempo de repensar nossos gostos! :o)