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Independência Doméstica

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Segundo um estudo feito pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em janeiro de 2013, o Brasil é o país que mais emprega domésticas no mundo. É isso mesmo! Nós temos o maior número absoluto de funcionários domésticos, somando aproximadamente 7,2 milhões de pessoas (6,7 milhões são mulheres e 504 mil homens). Isso significa que 17% das trabalhadoras brasileiras são domésticas.

Em uma realidade em que há bastante oferta de mão de obra, uma legislação incipiente e ainda sob regulamentação e um piso salarial baixo (o mais alto do país é o do Paraná, sendo R$ 983,40 para 44hs semanais = aproximadamente R$ 5,6 por hora de trabalho), é natural que o número de empregados domésticos seja tão grande.

E o que isso nos diz, na prática? Que somos um país extremamente acostumado a terceirizar os cuidados com a casa. Muitas pessoas neste país nascem e crescem sem nunca terem que lavar uma peça de roupa, passar uma vassoura na casa ou mesmo fritar um ovo. E eu fui uma delas!

E por mais que seja confortável saber que haverá alguém disponível para cuidar da nossa casa, das nossas roupas e até da nossa alimentação, há alguns efeitos colaterais dessa realidade.

empregadaO primeiro deles é a falta de profissionalização das domésticas. Se você ganha 5 reais por hora de trabalho e com este salário precisa sustentar a sua família, é de se esperar que você não tenha capital para investir em seu próprio desenvolvimento profissional. Além disso, sabemos que além das 44hs de trabalho, as domésticas levam mais um bocado de tempo para chegar às casas onde exercem suas funções e, como todas as outras mulheres deste país, têm suas próprias casas e famílias para cuidar. O tempo é curto.

Mas não é só falta de tempo ou recursos. Existe um fator ainda pior que é a falta de interesse. Não podemos generalizar claro, mas me lembro de que quando eu fui fazer minha formação em serviços domésticos, em uma agência de empregadas domésticas, que todas as profissionais que ali estavam tiveram o custo do curso pago pelos patrões. Algumas chegaram a ser levadas e buscadas de carro pelos patrões. E nenhuma delas me pareceu “grata” pela oportunidade. Cheguei a dizer “Poxa, que bacana a sua patroa investir em você. Sinal de que ela gosta do seu trabalho”. E ouvi “Eu bem que preferia estar em casa com a minha família”.

Em outro momento, ao longo do curso, houve uma polêmica sobre como lavar bem as roupas e uma delas disse “eu faço assim como você diz professora, mas a minha patroa me manda fazer assado e daí sai tudo errado”. E então começou um burburinho um tanto jocoso do tipo “minha patroa não sabe de nada”. Eu, então virei para elas e disse: “Quando vocês vão ao médico, esperam que o médico diga a vocês como se medicar? Esperam que ele te pergunte se você prefere o remédio “x” ou “y”? Não, né?! Pois o especialista é ele. Ele ganha para isso. E como profissionais domésticas vocês deveriam ser assim também. Vocês é que tem de saber o que fazer, e não as suas patroas”.

Após alguns segundos de silêncio, me peguei pensando de quem era a responsabilidade, afinal, pela falta de profissionalismo das empregadas, e concluí que, apensar das domésticas terem sua parcela, a falta de cobrança, treinamento e gestão dos patrões favorece em muito esta situação.

Como podemos gerir alguém que faz uma função que não temos nem a menor ideia de como desempenhar? Como avaliar desempenho, tempo, planejar melhor as tarefas se mal sabemos o que deve ser feito?

Grande parte desta geração nascida no conforto da terceirização doméstica mal sabe o que deve cobrar de um funcionário. Vira e mexe vejo donas de casa e mães de primeira viagem postarem no Facebook dúvidas como “O que posso pedir para minha babá fazer?”, ou “Posso pedir para minha mensalista dar comida ao bebê?”, “Faz parte do trabalho de uma passadeira a organização das roupas no armário?”.

Algumas pessoas não sabem ao menos ver se a casa está realmente limpa. Me lembro quando comecei a faxinar minha casa que encontrei uma amiga e disse para ela que o mais difícil (à época) era perceber quando eu fazia uma faxina malfeita. Comentei com ela que fiquei 1 mês limpando meu vaso sanitário sem perceber que deveria esfregar a parte curva do assento e que senti um nojo terrível quando vi que ele não estava sendo bem limpo. Ela riu e após 1 semana me mandou uma mensagem dizendo que depois da nossa conversa tinha “inspecionado” os seus banheiros e visto que sua faxineira tampouco estava limpando o vaso adequadamente.... E então me pus a pensar quantas outras pessoas, como eu e esta minha amiga, não passam pela mesma situação.

Outro fator importante, que é uma característica do brasileiro, é o fato de não gostarmos de confrontar os funcionários e explicar-lhes como fazer as coisas corretamente.  Em meus 11 anos de trabalho no mundo corporativo, posso dizer que uma das coisas mais difíceis para os gestores que eu conheci (e eu mesmo, quando gerenciei pessoas) é fazer avaliações negativas. Não gostamos de ser tidos por chatos. Gostamos que as pessoas gostem da gente. Não nos sentimos bem com “cara feia” e por isso evitamos ao máximo confrontar as pessoas. E se esta pessoa vive em nossa casa, limpa nossos banheiros, cozinha nossas refeições e, pior ainda, cuida dos nossos filhos, evitamos ainda mais qualquer indisposição. Mas como ter um serviço de qualidade se não nos sentimos bem em exigir melhorias?

E se isso era deixado de lado há alguns anos, a partir de abril de 2013, com a publicação da PEC das domésticas, este tema ganhou relevância. Acredito que todos concordem que as empregadas domésticas devem ter os mesmos direitos de qualquer outro profissional. Até porque seu trabalho é de extrema importância e a base para uma vida saudável em muitas casas deste país. Mas é inevitável sentir-se frustrado em assegurar todos os direitos e não receber em troca um serviço profissional.

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Então, como podemos melhorar as relações entre patrões e empregados domésticos?

Para nós aqui na Super Organizado, as relações profissionais somente se tornarão mais saudáveis se os patrões mudarem de postura. E é por isso que acreditamos no conceito de “Independência Doméstica”. O termo independência doméstica refere-se a não dependência em relação aos funcionários domésticos.Ou seja, o estabelecimento de uma organização doméstica na qual a necessidade de terceirização/delegação das atividades do lar é diminuída, ou mesmo, eliminada.

Se você é independente, sabe o que deve ser feito, sabe como fazer mais, melhor e em menos tempo. E assim, sabe exigir um bom serviço e sabe treinar quaisquer funcionários que decida ter.

E como fazer isso? Como se tornar um independente doméstico? Simples: aprendendo como gerir uma casa. E aprender a gerir não significa automaticamente fazer as tarefas pessoalmente. Significa obter conhecimento, tomar as rédeas da gestão da casa, se envolver, planejar, se organizar.

A nossa casa, a nossa alimentação e a nossa higiene são elementos básicos da vida. Não é possível ser feliz em uma casa desordenada, suja, nos alimentando mal. Aprendi há alguns anos que podemos delegar funções, tarefas, mas não podemos delegar responsabilidades. Você é o único responsável pelo seu bem-estar.